A conexão entre os povos da Austrália e o oceano tem origem há milhares de anos, através da navegação ancestral com mais de 60 mil anos de história. Esse legado perdura até hoje através do surfe, que constitui uma parte fundamental da identidade nacional. Ao mesmo tempo, a Austrália passou a ser líder mundial em energia eólica. Com alguns dos maiores parques eólicos do Hemisfério Sul, como o de MacIntyre, a energia eólica já representa 13,4% da energia gerada no país.
O que poucos imaginavam é que o mar e o vento acabariam por formar uma aliança por meio da economia circular. Isso aconteceu graças à colaboração entre a ACCIONA Energía e a empresa Bolero Surf, que criou uma nova linha de pranchas com quilhas sustentáveis. Nesta reportagem, contamos como foi a estreia delas em competição e a origem dessa iniciativa.
Tom Blake, o avô do surfe, foi o primeiro a ter a ideia, por volta de 1935, de acrescentar uma quilha à sua prancha rudimentar, à maneira das embarcações, para estabilizar seu movimento nas águas de Waikiki, no Havaí. Quase um século depois, Banjo Hunt, fundador da marca de pranchas Bolero Surf, começou a pesquisar novos materiais e designs para essa peça essencial, desta vez na Austrália. Banjo buscava um material de alto desempenho que também fosse sustentável. Ele precisava ser rígido o suficiente para reduzir o atrito com a água, mas flexível o bastante para manter o controle. Foi então que seu caminho se cruzou com as pás desativadas dos aerogeradores da ACCIONA Energía. Segundo ele, o design desenvolvido representa uma alternativa mais eficiente às tradicionais quilhas de fibra de vidro.
Essas quilhas são fabricadas por meio do corte e da remodelagem de seções das pás, utilizando processos puramente mecânicos. Dessa forma, a integridade estrutural do material compósito é preservada, sem a necessidade de tratamentos químicos adicionais. O resultado é uma quilha que não apenas reutiliza materiais compósitos avançados, mas também aproveita seu design original, concebido para resistir a forças extremas.
Além do uso do material em si, a colaboração com a ACCIONA Energía proporcionou à Bolero Surf o conhecimento técnico necessário para compreender melhor as propriedades únicas do material compósito.
A nova geração de quilhas sustentáveis deixou de ser apenas uma curiosidade e se tornou um produto comercial de pleno direito. E não apenas como parte do surfe recreativo, mas também em campeonatos profissionais como o Aussie Boardriders Battle (ABB), onde foi lançada em março de 2026, brilhando nas águas das praias de Burleigh Heads, na Gold Coast, em Queensland. Lá, o surfista Darcy Crump testou a eficiência de algumas quilhas que, em suas próprias palavras, “parecem sólidas e rápidas nos giros”. E ainda por cima são sustentáveis.
Atualmente, a energia eólica está totalmente consolidada, e muitos de seus parques já contam com décadas de atividade gerando energia limpa. Alguns dos aerogeradores começam a ser desativados para dar lugar a unidades mais potentes e eficientes, em um processo conhecido como repotenciação, conforme explicamos neste artigo sobre o parque eólico de Tahivilla, nas antípodas da Austrália.
Abraçar esse processo com uma abordagem circular que permita recuperar 100% dos materiais é um dos objetivos prioritários da ACCIONA Energía para os próximos anos. Tanto o concreto e o aço das bases e torres quanto os componentes metálicos da nacele e as resinas das pás podem e devem encontrar uma segunda vida, assim como aconteceu com as quilhas de surfe. Nesse contexto se insere uma iniciativa pioneira da ACCIONA Energía.
As quilhas da Bolero Surf não são produto do acaso, nem uma feliz coincidência, mas fazem parte da ambiciosa iniciativa Turbine Made da ACCIONA Energía, lançada em fevereiro de 2025.
As quilhas da Bolero Surf não são um produto do acaso, nem uma feliz coincidência, mas fazem parte de uma ambiciosa iniciativa da ACCIONA Energía, lançada em fevereiro de 2025 na Austrália para dar novos usos aos aerogeradores que chegam ao fim de sua vida útil. A iniciativa foi batizada Turbine Made e seus primeiros materiais foram obtidos das pás do parque eólico Waubra, em Victoria. Além disso, transformamos uma dessas pás em um novo material para uso em aplicações industriais, evitando emissões equivalentes a 5.715 árvores.
Essa iniciativa responde a um desafio crescente em todo o setor: a Austrália já conta com dezenas de parques eólicos com turbinas com mais de 15 anos e, durante a próxima década, será necessário substituir um número significativo de pás. Desenvolver soluções escaláveis é fundamental para desviar grandes volumes de material dos aterros e possibilitar uma transição energética mais sustentável. Depois, tanto o conglomerado quanto os segmentos das pás extraídos através de cortes mecânicos passaram a ser usados em novas aplicações.
Uma das iniciativas mais inovadoras é a criação de protótipos de pranchas de surfe (abre em uma nova aba), em parceria com o surfista profissional Josh Kerr e sua marca, Draft Surf. Utilizando perfis transversais de pás “desativadas”, a equipe criou pranchas que integram diversos componentes derivados de turbinas: fibra de vidro reutilizada em quilhas para proporcionar estabilidade e velocidade, perfis cortados com precisão usados como tiras de flexão para melhorar a flexibilidade controlada e partículas da Turbine Made incorporadas à resina para reforçar a estrutura da prancha. No total, cerca de 30% do peso de cada prancha é proveniente de pás de turbina recicladas.
Na Espanha, seguindo um conceito muito parecido, elas foram transformadas em vigas de torção para painéis solares ou na sola de tênis para continuar sua vida útil, desta vez em terra firme.
Conforme uma geração de turbinas chega ao fim de sua vida útil, iniciativas como a Turbine Made demonstram como materiais criados para produzir energia podem continuar gerando valor de formas totalmente novas.
Não sabemos quais novas aplicações outros empreendedores irão criar seguindo os passos de Banjo Hunt, mas temos a certeza de que os aerogeradores da ACCIONA Energía encontrarão uma forma de continuar sendo úteis mesmo após décadas em funcionamento, e que colocaremos nosso know-how tecnológico a serviço dessa abordagem circular.